Raul Correia

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Conformismo e Resistência

Posted by Raul Correia em outubro 4, 2008

 

Uma idéia problemática, evidentemente

 

            A expressão Cultural Popular é de difícil definição. Seria a cultura do povo ou a cultura para o povo? Assim, trata-se de saber quem, na sociedade, designar uma parte da população como “povo” e de que critérios lança mão para determinar o que é e o que não é “popular”. Do ponto de vista oficial ou estatal, “popular” costuma designar o regional, o tradicional e o folclore. Mas por qual motivo essas designações foram as escolhidas?

            A Cultura, escreve Hanna Arendt, era o cuidado com a terra para torná-la habitável e agradável aos homens, era também o cuidado com os deuses, os ancestrais e seus monumentos, ligando-se à memória e, por ser o cuidado com a educação, referia-se ao cultivo do espírito.

            A partir do século XVIII, observa Raymond Williams, o termo Cultura articula-se com o termo Civilização. Entretanto, civilização significa, por um lado, o ponto final de uma situação histórica e, por outro lado, um estágio ou uma etapa do desenvolvimento histórico-social, pressupondo, assim, a noção de progresso.

            Para Rousseau, a Civilização é a sociedade política. “Cultura”, ainda que evidentemente uma prática social, relacionava-se com a vida interior em suas formas mais acessíveis e seculares: subjetividade, imaginação e indivíduo.

            Já para Voltaire e Kant, Cultura torna-se medida de uma Civilização, meio para avaliar seu grau de desenvolvimento e progresso. A cultura permite avaliar, comparar e classificar civilizações.

            Cultura é o campo simbólico e material das atividades humanas. Em sentido restrito, isto é, articulada à divisão social do trabalho, tende a identificar-se com a posse de conhecimentos, habilidades e gostos específicos, com privilégios de classe, e leva à distinção entre cultos e incultos de onde partirá a diferença entre cultura letrada-erudita e cultura popular.

            Na trilha aberta por Rousseau, caminharão os Românticos, em combate aos Ilustrados. “O popular na cultura, posto em marcha pelo movimento romântico, e o povo na política, elaborado pela Ilustração”.

            A dualidade Povo-povinho persistirá na Ilustração. Haverá, para ela, o Povo como vontade universal e legislador soberano, unidade jurídica dos cidadãos definidos pela lei, e o povinho ou populacho, ignorante, supersticioso, irracional e sobretudo sedicioso – a massa perigosa. Há, pois, o Povo como generalidade política e o povo como particularidade social, os “pobres”. Como observa Barbero, os Ilustrados estão aprisionados num círculo contraditório: “estão contra a tirania, em nome da vontade popular, e contra o povo, em nome da razão”.

            No pólo oposto – o popular na cultura –, os Românticos esperam que a afirmação da alma popular, do sentimento popular, simplicidade e pureza populares quebrem o racionalismo e o utilitarismo da Ilustração, considerada por eles causa da decadência e do caos social. Com o Romantismo, delineiam-se os traços principais do que se tornou a Cultura Popular: primitivismo, comunitarismo e purismo.

            Os casos mais interessantes são aqueles nos quais os dois pontos de vista tentam uma conciliação: a Razão “vai ao povo” para educar sua sensibilidade tosca, e o Sentimento “vai às elites” para humanizá-las.

            A novidade gramsciana inclui o de cultura como processo social global que constitui a “visão de mundo” de uma sociedade e de representações, normas e valores da classe dominante que ocultam sua particularidade numa universalidade abstrata. Todavia, o conceito de hegemonia ultrapassa aqueles dois conceitos. A hegemonia é a cultura numa sociedade de classes. Como cultura numa sociedade de classes, a hegemonia não é apenas conjunto de representações, nem doutrinação e manipulação. É um corpo de práticas e de expectativas sobre o todo social existente e sobre o todo da existência social: constitui e é constituída pela sociedade sob a forma da subordinação interiorizada e imperceptível.

            A perspectiva Romântica supõe a autonomia da Cultura Popular, a idéia de que, para além da cultura ilustrada dominante, existiria uma outra cultura, “autêntica”, sem contaminação e sem contato com a cultura oficial e suscetível de ser resgatada por um Estado novo e por uma Nação nova. A perspectiva Ilustrada, por seu turno, vê a Cultura Popular como resíduo morto, como museu e arquivo, como o “tradicional” que será desfeito pela “modernidade”, sem interferir no próprio processo de “modernização”.

 

O Popular e a Massa

 

            A “massa” torna real o sonho da democracia liberal, onde as divisões sociais podem ser reduzidas a divergências de interesses entre grupos e indivíduos, capazes de chegar ao consenso político à maneira do mercado que se auto-regula, regulando os interesses particulares. Na trilha da “sociedade de massa” vinha a “cultura de massa”, expressão da democracia cultural pelos meios de comunicação, símbolos vivos da liberdade de pensamento e de expressão e da plena transparência da informação.

            Independentemente do significado antagônico das duas perspectivas, deixaram elas um saldo comum que repercute sobre a maioria das análises referentes à Cultura Popular nos países ditos centrais ou de capitalismo avançado. A Cultura Popular é identificada com a Cultura de Massa.

            A noção de Massa tem como contraponto sócio-político a noção de Elite. Esse contraponto tende a reduzir o social a duas camadas, a “baixa” (massa) e a “alta” (elite). Não só a divisão social das classes fica dissimulada como processo de constituição do próprio social, mas também a distinção massa/elite justifica e legitima a subordinação da primeira à segunda. A ideologia considera que a elite está no poder não só porque detém os meios de produção, os postos de autoridade e o Estado, mas porque possui competência para detê-los. A elite detém o poder porque possui o saber.

            Convém examinarmos um aspecto pelo qual Cultura Popular e Cultura de Massa se diferenciam. Trata-se da estrutura da Comunicação de Massa.

            A comunicação de Massa funda-se no pressuposto de que tudo pode ser mostrado e dito ou de que tudo é mostrável e dizível, desde que estabelecidos critérios autorizando quem pode mostrar e dizer e quem pode ver e ouvir.

            Percebe-se uma curiosa defesa da “modernidade”: os chamados “subalternos” devem gozar do direito ao “moderno”, mas apenas na qualidade de consumidores, artistas julgados pelos padrões das emissoras legalizadas. Na qualidade de produtores e de criadores é-lhes vedado o acesso ao “moderno”, pois, se tal ocorresse, os “subalternos” estariam pondo em questão a viga-mestra da “modernidade”, isto é, a divisão social entre competentes e incompetentes, ou, no jargão sociológico, entre Elite e Massa.

            A Informação, ainda que no nível dos princípios deva e possa responder à exigência público-democrática, está estruturada de modo a produzir o efeito inverso, isto é, a intimidação social. Sob a aparência da democratização cultural, a Informação produz os incompetentes sociais e reforça a divisão elite/massa.

            Propondo distinguir Cultura Popular e Cultura de Massa, não perderemos de vista os aspectos em que predomina o conformismo da primeira diante da segunda, mas também não deixaremos de enfatiza aquilo que, noutro contexto, Amnéris Maroni designou como “a estratégia da recusa”.

            A perspectiva liberal ilustrada oscila entre duas atitudes, a partir do momento em que delimita o círculo daqueles que possuem o direito ao “uso público da razão”. Numa direção, proclama a necessária minoridade cultural da plebe, isto é, a impossibilidade de facto e de jure dos plebeus de desenvolverem práticas culturais e terem acesso à cultura dominante, de sorte que essa dupla impossibilidade lhes veda o direito à plena cidadania. Noutra direção, estabelece o quantum educacional e cultural que cabe a cada classe social para que cumpra eficazmente as funções que lhe são atribuídas pela Organização, isto é, pela divisão social do trabalho, de sorte que os plebeus devem receber um quantum mínimo de instrução e consumir um quantum mínimo de bens culturais.

 

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