Raul Correia

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Acidente ecológico

Posted by Raul Correia em dezembro 2, 2008

            A ecologia tem ocupado as páginas jornalísticas em duas situações extremas: ora através do que tem sido chamado “acidente” ecológico, ora nas páginas de educação onde se fala da necessidade de conservação da natureza. Diante do “apocalipse”, se responde com a pregação de uma consciência ecológica. O exagero da linguagem demonstra, na verdade, a recusa de compreender a complexa relação entre as sociedades e a natureza.

            O Caso Tucuruí está relacionado ao Projeto Carajás. Nenhum grande grupo privado nacional ou internacional teria interesse em criar as condições gerais de produção – infra estrutura de águas, esgoto, energia, transporte, comunicações, habitação, saúde e educação – sendo chamado o Estado a cumprir esta função. O grande capital, por sua vez, precisa de uma rotação rápida e por essa via é possível entender por que uma trilha de 200 km deveria ser aberta rapidamente para a instalação da rede de transmissão de energia. É coerente, portanto, que se lance mão de desfolhantes químicos – agente laranja – que poupa tempo, diminui custos e… mata pessoas, flora e fauna.

            No caso do vale São Francisco temos duas hipóteses que procuram compreender a contaminação das águas. A primeira é de que a contaminação do São Francisco foi causada pelo despejo de grandes quantidades de vinhoto, lixo proveniente do fabrico de álcool. Que está associado ao Proálcool, projeto do governo. A segunda hipótese é que a poluição se deve à grande quantidade de produto químico originário das lavouras da região. No campo brasileiro existe uma relação que se estabelece entre o produtor rural, as grandes indústrias químicas e os bancos. Os bancos para aprovarem financiamentos exigem, entre outras coisas garantias, aquelas que a moderna ciência e tecnologia podem dar para o bom rendimento da plantação. Porém, qualquer que tenha sido o poluente que inviabilizou a pesca para milhares de famílias no Rio São Francisco ficam evidentes os interesses que produziram tais efeitos.

            O incêndio de Vila Socó em Cubatão-SP chama a atenção ao colocar em destaque as condições ambientais de vida de importantes segmentos da população brasileira. Vivendo sobre os dutos de álcool, óleo e gasolina, a população pobre da Vila Socó morava sobre um barril de pólvora. Após o incêndio que vitimou aproximadamente 500 pessoas, o Presidente da Petrobrás brandiu diante da imprensa vários documentos em que a empresa pedia à população que se retirasse do local face aos riscos a que estaria submetida. Diante disso pode-se ser levado a concluir que a população de Vila Socó era irresponsável por não dar ouvidos à solicitação da Petrobrás. No entanto, poucos se dão conta que morar em Vila Socó não é uma opção.

            Em nenhum dos três casos então relatados cabe a denominação de acidente ecológico que comumente é usada. Os processos sócio-econômicos e políticos subjacentes são por demais evidentes.

            Além disso, nos três casos o Estado estava de algum modo envolvido com os fatos. Nossa sociedade não é constituída por um conjunto homogêneo de cidadãos. Ao contrário, no interior dela se colocam interesses contraditórios entre os diversos segmentos. Deste modo fica evidente que ecologia e política estão intimamente interligados. No sentido grego, Política diz respeito à arte dos cidadãos definirem os limites para suas vidas. A ecologia mexe com os limites do homem e, neste sentido, com o que é da essência da política.

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