Raul Correia

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O gay no ambiente de trabalho

Posted by Raul Correia em abril 8, 2009

A cultura homossexual é vista como conseqüência das sociedades complexas, nas quais não existe sistema de valores único e uniforme que seja válido para todos os indivíduos. Afirma-se que a emergência dessa cultura está enraizada em um sistema econômico e social ligado aos processos de urbanização e industrialização que favoreceram relativo anonimato e impessoalidade para os homossexuais que escolheram morar nas grandes cidades. A mudança de cidade, do interior do Brasil para os grandes centros urbanos, contribuiu para que os homossexuais pudessem vivenciar a sexualidade de maneira concreta, longe da família e de pessoas que não os apoiavam. A revelação da orientação sexual, no entanto, deixa o indivíduo gay passível de perder conexões humanas, inclusive de amigos íntimos e familiares, à medida que sofre um número maior de eventos negativos por parte da sociedade.

Diversos autores afirmam haver barreiras encontradas por gays, lésbicas e bissexuais no ambiente de trabalho. Dentre elas, as principais são: discriminação, inapropriação de profissões para os homossexuais, homofobia, estereótipos negativos, estigmas sociais e o medo da AIDS no ambiente de trabalho. Dentre os diversos fatores que contribuem para a manutenção do silêncio e a permanência no armário (não assumir a homossexualidade), o medo do isolamento, a perda de chances de promoção, a exclusão de redes de trabalho profissionais, a intimidação, a violência e a discriminação são os argumentos mais citados. Assumir a homossexualidade seria motivada pela necessidade de se ter mais liberdade de expressão no ambiente de trabalho, de ser inteiro e completo, sem disfarces e limitações no comportamento e nas atitudes. Por outro lado, o que motiva a permanência no armário é acreditar que se tornarão vítimas de brincadeiras, piadas, chacotas e isso, por sua vez, contribuiria para haver desrespeito e dificuldade de relacionamento no trabalho. Relacionado a punições e sanções no ambiente de trabalho, nota-se a cobrança social advinda do fato de se pertencer a um grupo minoritário. Cobra-se muito mais de uma pessoa membro de um grupo minoritário, (mulheres, negros, deficientes ou homossexuais) do que de qualquer outra pessoa vista como participante do grupo dominante. Com base nisso, o indivíduo gay, por pertencer a um grupo minoritário, constantemente exige mais de si próprio, exige destaque, um diferencial nas diversas áreas da vida, como forma de suprir e diminuir as lacunas decorrentes de preconceitos e discriminações sociais (exclusão, supressão de direitos e outros). Ainda neste contexto, o assédio moral e a negação de direitos são também consideradas formas de punir, sendo vistas inclusive como as piores. Para os gays, a punição ocorre à medida que a eles não são concedidos direitos, oportunidades e tratamentos compatíveis com aqueles dados aos heterossexuais.

As experiências negativas são de diversas ordens e tipos e estão presentes no contexto organizacional tal como o estão no contexto social como um todo. Embora sejam situações diferenciadas, refletidas com mais ou menos intensidade de acordo com cada caso e situação, nota-se claramente o preconceito e a não aceitação social no que se refere à homossexualidade. As piadinhas, os comentários, as brincadeiras são formas singelas de se admitir que o gay não é bem quisto socialmente e essa forma pejorativa de se abordar a identidade gay no trabalho é freqüentemente vista e percebida nos contextos organizacionais. Associado a esse tipo de comportamento, verificam-se ainda atitudes drásticas que somam ao jogo de poder existente entre os membros da organização, o livre arbítrio, isto é, o chefe homofóbico em muito pode contribuir para a perda de emprego, para retaliação de oportunidades, para estagnação profissional e, claro, para ocorrência de penalidades associadas à questão da orientação sexual.

Em termos gerais, a definição do que é ser gay traz consigo particularidades e dificuldades que o grupo heterossexual não vivencia e com as quais não convive. O gay visto como diferente e anormal, as limitações no comportamento, a pouca aceitação social, os conflitos internos por eles vivenciados, a violência, a discriminação e o preconceito a que estão submetidos são apenas alguns de muitos aspectos ligados ao fato de ser gay.

Uma resposta to “O gay no ambiente de trabalho”

  1. P26sp said

    Estou de acordo com o que foi exposto no artigo e gostaria de acrescentar algo.
    Apesar de haver um movimento dentro da próprio grupo minoritário gay que se diz ser mais aceito agora porque “ser gay estar na moda”, esses mesmos não enxergam o quanto estão se marginalizando ao se rotularem como grandes baladeiros, farreadores e fashionistas. O que conseguiram com isso foi o estabelecimento de uma aceitação por parte das mulheres do mundo hétero que criam com eles relações de confidência e momentos de farras, que julgam não poder ter da mesma forma e/ou abertura com outras mulheres, afinal (segundo elas mesmas), ter a amizade com o gays significa somente que isso as livra de uma série de questões envolvidas numa amizade com outra mulher. No entanto, no âmbito de uma aceitação amistosa, a aceitação do gay por parte dos homens do mundo hétero ainda deixa muito a desejar.
    E o que o artigo trouxe de mais importante é o ambiente de trabalho pois aí estão as coisas para valer. O gay sente a necessidade de um destaque maior e mesmo nesse sentido enfrenta grande dificuldades, quando um gay, por exemplo, numa situação de concorrência com um hétero acaba tomando o lugar dele: está passível de ataques muito mais agressivos e discriminatórios do que se fosse um hétero, deve estar sempre preparado para um ataque mais agressivo.
    Além do mais, como foi dito no artigo, há uma falta de completude, de um ser uno, mais relaxado, de bem consigo mesmo, pois há sempre a necessidade de não poder em momento algum partilhar de coisas da vida íntima, o que torna a vida no trabalho um pouco mais sufocante, mais pesada.
    Além do mais, o peso e o medo envolvido na abertura da homossexualidade parece ser muito maior e o gay então se vê numa situação em que não pode escolher o que é mais leal e sincerto para si. Por exemplo, numa festa do trabalho, as pessoas trazem seus respectivos conjuges, e esse momento que deveria ser também de descontração para o gay acaba se tornando de tensão pois não pode levar o namorado, e, mesmo assim, deve ir por uma questão profissional, mas tem que ir sozinho, sabendo que estará sujeito a comentários de desconfianças por parte dos outros.
    O gay, a não ser que seja o chefe da empresa, nunca se ve em uma situação em que pode estar totalmente confortável com o que é no ambiente de trabalho, podendo escolher somente uma postura “que o vá prejudicar menos”: está limitado. De fato não se pode negar: o gay enfrenta mais obstáculos do que os heterossexuais, principalmente no ambiente de trabalho.

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